Pontos principais da participação de Pe. Júlio Lancellotti no primeiro encontro de 2017 da Escola de Cidadania de Sapopemba, no dia 10/03/2017

  • Há umas palavras que já não gosto mais de usar. Uma delas é “políticas públicas”. Por que políticas públicas hoje nada mais é que o controle dos pobres.

  • Por exemplo a política das medidas socioeducativas em meio aberto – o programa mais sucateado que existe – é só um nome bonito que usamos para apontar as migalhas que o sistema dá para os pobres.

  • E nós também corremos o risco de ensinar e atuar de forma a domesticar as pessoas. O que fazemos com o povo da rua? Queremos que seja educadinho, limpinho, adequadinho, que agradeça. Bostinhas que nem nós somos!

  • O prefeito dizia nas reuniões que tivemos: “Nós fazemos o que podemos”. Só que o que o poder pode, não é o que as pessoas necessitam!

  • Há um fosso enorme entre o que os pobres precisam e o que o poder econômico está disposto a conceder. Por isso que temos esta situação de marginalização, de negação da vida, de violência, de tudo que fere a vida do nosso povo.

  • Dizem: “Ah, nós vamos resolver!” Pode parecer um pouco pessimista, mas enquanto temos este sistema de exploração e dominação, do “Ordem e Progresso” não há solução. Tomei ojeriza desse “Ordem e Progresso”, de crianças hasteando bandeiras! Que enganação! Devemos dar às criancas uma bandeira com escrito “Não!”. Enquanto permanece esta ordem que domina, não há solução, estaremos na miséria.

  • E a pior coisa que pode existir é quem está junto ao povo que sofre ter a cabeça de quem explora e domina o povo. É um grande risco que corremos. Reproduzir o discurso que domina. Um processo educativo de submissão.

  • O que devemos fazer é construir automomia, promover a liberdade. A primeira palavra que a criança aprende é “Não”. Porque? Por que é a primeira palavra que falamos para ela, o que mais os adultos falam.

  • Na psicologia infantil o momento mais importante do desenvolvimento é quando a criança aprende a falar uma coisa diferente do que ela sente e ninguém percebe. Até ali ela acha que é a mãe que sabe o que ela sente, o que ela pensa. Acaba o controle. Aprende que pode falar uma coisa diferente do que ela pensa. Se descobre como pessoa autônoma. Não é mais uma extensão da cabeça da mãe.

  • Muitas vezes nossos trabalhos sociais não passam de reprodutores de submissão. Não sabemos lidar com quem diz “Não!”.

  • Trabalhamos com os tais de “critérios”, de “perfis”. Temos que fazer os malditos relatórios e mandá-los para os malditos juízes, para que esses jovens se tornem inofensivos, domesticados, não mais perigosos.

  • Os meninos que subiam aos telhados e que quebravam tudo na Febem praticavam atos de saúde mental. Quebravam os grilhões que os prendiam. Atos de sanidade mental.

  • Repetimos para os jovens as mentiras do sistema e as apresentamos como verdades: “Estude que sua vida vai melhorar!” Que coisa mais mentirosa! “Vai conseguir um bom emprego”. No sistema em que vivemos isto não existe.

  • Não percebemos aquilo que eles nos estão transmitindo. Um menino que tinha apanhado da policia e estava algemado – era “perigoso”, tinha “reagido” – devia ser um idiota para apanhar passivamente sem reagir! – ao qual perguntei se tinha alguém que se podia chamar, respondeu: “Não tenho ninguém!”. “Você tem a mim!” Lágrimas nos olhos, o adolescente respondeu: “Eu sei padre!”.

  • Dificilmente respeitamos os sentimentos, a afetividade, a subjetividade desses meninos.

  • Uma coisa podemos e devemos fazer: Resistir! Não deixar nosso pensamento ser colonizado pelos que dominam. Ter liberdade de pensamento. Nós não vamos ganhar, vamos perder. Mas não vamos entregar nossa consciência. Vamos apanhar, mas não vamos nos acovardar. Não queremos o poder, queremos resistir, aguentar, ser sinal de esperança. Nossa luta não vai nos fazer vencer, só podemos resistir.

  • Precisamos de uma “teologia do fracasso”. Somos os fracassados. Não queremos o sucesso que vem de aderir ao sistema. Precisamos de uma leitura bíblica que não seja fundamentalista, que não seja embecilizante.

  • Na leitura das comunidades católica lemos as Tentações de Jesus. Diria que são seduções. O demônio propõe a Jesus o sucesso, que tire vantagem do ser o Filho de Deus. Em vez de tornar pedra em pão, ele se torna pão a ser partilhado. Jesus não aceita a sedução do poder.

  • Não queremos ter o poder. Quem aspira ao poder não está no caminho que precisamos, que é o caminho de resistir, persistir, insistir.

  • Muita gente pergunta: “Quanta gente já tiraram da rua? Quantos adolescentes na medida socioeducativa não voltaram a infracionar?” Uma contabilidade pastoral.

  • O papa falou uma coisa: “O estado é que é delinquente!”. E nós continuamos tentando recuperar os infratores! Temos que ser amigos daqueles que ninguém quer, aqueles que estão fora dos nossos critérios.

  • Devemos trabalhar para que as pessoas vençam o preconceito, para que a homofobia seja vencida, para que as pessoas transsexuais sejam tratadas como gente. Como lidamos com a questão de gênero?

  • Lá no maldito Fórum, junto ao maldito Ministério Público e Judiciário, as meninas transsexuais são tratadas de maneira cruel, violenta, discriminatória, preconceituosa.

  • E nos nossos centros de atendimentos? Como acolhemos o travesti, a transsexual, o morador de rua? Pedimos que troquem de roupa? Por que tem que usar cueca se ela se vê como menina? Nos centros de acolhimento às vezes tem a “fila dos viadinhos”!

  • As crianças mais velhas na fila da adoção estão sendo adotadas por casais homoafetivos. Estas crianças estão chegando à catequese nas comunidade. Como vamos acolhê-las?

  • Neste tempo de guinada geral para a direita, nossa tarefa é resistir. Não ter medo de enfrentar os desafios, de apanhar.

  • Papa Francisco sofre mais oposição dentro da própria Igreja que fora. Ele corre mais perigo no Estado do Vaticano que no Estado Islâmico! Uma espiritualidade individual, direta para Deus, que não passa pela mediação do irmão, não é a espiritualidade de Jesus. O papa também resiste.

  • Não vamos jogar a toalha, mas molhar a toalha e jogá-la na cara de quem enche o saco! Os jovens que vi com maior esperança, os melhores que eu vi são os Black Blocks, especialmente as meninas, pela coragem de enfrentar a polícia. Devemos estudar as práticas dos Black Blocks. As sufragistas inventaram as táticas que eles usam: quebrar aquilo que as quebrava! A imprensa demonizou esses jovens. Eles quebram o que quebra eles.

  • A força do Espírito Santo de Deus hoje está na resistência, na desobediência, na rebeldia, na não aceitação do que domina, nos que não se submetem.

  • Ao GCM que disse “Sou Católico Apostólico Romano, mas hoje estou deixando de ser por causa do senhor”. “Mas que boa notícia! Não seja C.A.R., seja HUMANO! Não bata nos fracos, não chute os pequenos, não tire a coberta do pobre, não derrame a comida no morador de rua! SEJA HUMANO, você será muito melhor!” “É, até o papa falou que é melhor ser ateu do que um mau católico!” “Seja lá o que for, seja livre, mas seja humano! Não por títulos, mas pela sua consciência, pelo imperativo ético de fazer o bem!”

  • Amar é muito difícil. O amor é muito exigente. As consequência do amor... cada um carrega no corpo as marcas de seu amor. Não tem amor sem dor. O amor nos vulnerabiliza. Opção fundamental que temos que fazer.

  • Defendi a mulher trans que se apresentou na cruz na parada gay. Desrespeitou um sinal sagrado? Ela que era o sinal sagrado! Ela que foi profanada! Ela que foi crucificada!

  • Nossa caminhada é muito difícil, mas não há outra digna.

  • O Doria gosta do poder e a Igreja gosta do Doria! Ele está com a elite e a Igreja gosta disso.

  • O discurso público hoje é um discurso piedoso, emocional: “As crianças na rua estão numa situação indigna, não humana”. Querem tirar as crianças da rua, mas não querem saber de perguntar porque estão na rua. Aumenta a intolerância. As pessoas na rua são tratadas como “lixo”. Iremos apanhar muito dos aparatos de segurança. Os pobre são vistos como perigosos, como bandidos e nós somos vistos como defensores de bandidos.

  • Nossa luta é histórica, não é apenas nossa luta, não podemos perder a memória e a consciência histórica. Também bani do meu vocabulário o linguajar do pacifismo. A violência é do Estado, do sistema.

  • Conheçam o lado humano das pessoas com quem vocês trabalham. Aprendam a enxugar lágrimas das pessoas que atendem.

“Políticas Públicas Só Servem Para O Controle Dos Pobres. Nossa Tarefa É Resistir”, Afirma Pe. Júlio Lancellotti